quarta-feira, abril 04, 2007

"O fundo do canudo"

"Não, não sou doutor. Sou apenas senhor, como o sr. António Champalimaud." Habituei-me, em tempos, a repetir esta frase sempre que alguém me atribuía um título académico que não possuo mas que seria supostamente adequado à importância que me concediam. A minha referência a Champalimaud não era gratuita: não tinha nenhuma simpatia particular pela personagem, um homem extremamente arrogante que já se considerava dono do País ainda na época de Salazar (e que, para provocar o ditador, se deixara fotografar junto de Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e outras figuras da oposição democrática). Mas talvez porque fosse um dos homens mais ricos de Portugal, Champalimaud prescindia altivamente de qualquer distinção nobiliárquica universitária. Num país de doutores, ele podia permitir-se ser apenas senhor - um grau de distinção que o diferenciava dos demais. Eu não tinha nem a fortuna nem a arrogância nem as manias de Champalimaud. Apenas compartilhava com ele essa diferença.
Portugal é o único país da Europa e porventura do mundo em que os títulos de nobreza universitária são indissociáveis de uma carreira profissional relevante, em especial na política. A nível caricatural, apenas em Itália encontraremos uma correspondência similar no título de comendador. Ora, entre aqueles que não tiveram a sorte em Portugal de chegar a doutores ou engenheiros, não falta quem exiba festivamente a qualidade de comendador - uma qualidade que, aliás, passa a ser automaticamente consagrada desde que o titular da comenda o reivindique, como acontece, por exemplo, com o coleccionador de arte José Berardo.
Os títulos de nobreza universitária ou outros concedidos pelo Estado - como o de comendador - caracterizam a nossa pequenez complexada e provinciana. Ninguém imaginaria questionar em França qual foi o estatuto académico de André Malraux - que simplesmente não o tinha, mas se tornou famoso como escritor, truculento aventureiro e traficante de objectos artísticos, além de ministro da Cultura do general De Gaulle. Sabe-se também que o mais carismático presidente da Comissão Europeia, Jacques Delors, teve um passado operário e nenhuma qualificação universitária, destino idêntico ao do primeiro-ministro britânico John Major. E os exemplos poderiam multiplicar-se por esse mundo fora.
Mesmo em Portugal, já ninguém se preocupa em saber se o mais clássico dos nossos poetas e símbolo nacional, Luís de Camões, terá tido qualquer frequência em estudos universitários na sua área de eleição - não os tinha, pura e simplesmente -, ou se o mais genial criador literário português do século XX, Fernando Pessoa, foi doutor em coisa alguma. Aliás, até o nosso Nobel da Literatura, José Saramago, foi serralheiro mecânico e nunca se guindou a nenhum grau universitário. O problema principal são os políticos - e essa é porventura uma velha herança que antecede o salazarismo, mesmo que este tenha sido o inspirador mais recente do complexo de inferioridade (e autoridade) nacional, reverentemente cultivado pela actual classe política.
Nos tempos da monarquia, o acesso às funções mais elevadas do Estado estava quase exclusivamente reservado àqueles que estivessem investidos de títulos nobiliárquicos: condes, marqueses ou duques. A república substitui-os pelos doutores: de Afonso Costa a Mário Soares, sem esquecer Álvaro Cunhal ou até Paulo Portas. Ser Professor revelou-se um galão superior de pedigree, especialmente para aqueles que vinham da província e eram de origem humilde, como Cavaco Silva (e o próprio Salazar). E ser engenheiro emprestou à função primo-ministerial um toque de modernidade, como verificámos com António Guterres e, agora, José Sócrates.
O embaraço do primeiro-ministro com a polémica sobre as suas qualificações académicas não teria razão de existir se o conceito de modernidade de Sócrates não estivesse, no fundo, tão marcado pelo complexo de inferioridade e provincianismo que afecta a classe política. Muito antes do descalabro da Universidade Independente e das notícias dos jornais, já o currículo de Sócrates era maldosamente referido na blogosfera, essa outra praga moderna que escapa ao controlo dos poderes públicos (hoje particularmente hipersensíveis ao "jornalismo de sarjeta" que tanto desgosta o ministro dos Assuntos Parlamentares). Mas a coincidência infeliz entre os episódios indecorosos da UnI e o embaraço socrático acabou por lançar uma mancha inoportuna sobre a credibilidade do primeiro-ministro, independentemente das culpas no cartório universitário privado que lhe concedeu a licenciatura. Como no velho ditado, Sócrates arrisca-se a ver Braga por um canudo - sendo que Braga é a imagem que ele projecta através do seu próprio canudo. E ao fundo do canudo, para além da anedótica irrelevância de ser ou não ser engenheiro ou licenciado em Engenharia, está uma questão de carácter.
"
Não podia concordar mais!

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