segunda-feira, janeiro 15, 2007

Uma espécie de progressista

Se bem que decidi à uns meses que tudo o que tinha a dizer sobre o aborto seria divulgado no outro blogue, colectivo, este já é o segundo texto que escrevo aqui sobre o assunto. Não sei porquê. Talvez porque este seja o meu espaço (puro e duro) e não quero vincular os meus parceiros a certas opiniões que são demasiado pessoais, ou, porque sendo aquele um blogue com mais audiência, aqui me sinta mais resguardado e não sujeito a acusações que às vezes me fazem lá ,por vezes não muito simpáticas.
Perguntam-me vocês de que é que estou a falar. Da minha posição em relação à Igreja (Católica, Apostólica, Romana) no que toca a este debate sobre a despenalização da IVG ( e não, não tenho problemas em falar em aborto, só não é o termo técnico). Não é que não ache que a igreja deva abster-se de participar neste referendo (já o disse), mas discordo completamente da forma como o faz. Sim, a Igreja defende a Vida, já o sabemos. Sim, interfere neste referendo no contexto da sua ideologia, e que julga que tal ideologia se deve sobrepôr à de um Estado laico, democrático e de Direito, e que tal Estado não tem o direito de referendar o que não é referendável, ou seja, a Vida. Mas, à parte de esta não ser a questão que está em discussão neste referendo, porque ninguém está a referendar a vida (tal é impossível), a forma como a igreja está a fazer campanha é a errada e está a afastar cada vez mais os seus fiéis da sua posição.
Se bem que sempre fui um católico um pouco progressista e incomodado ( a minha catequista dizia que punha muitas perguntas incómodas e estranhas), que defende o uso do preservativo, da pílula, que defende o planeamento familiar, a ordenação das mulheres, a despenalização da IVG, critica a falta de apoio da Igreja a certas populações durante conflitos armados, que condena o passado da Igreja e a forma como a Igreja fecha toda a sua história a sete chaves e condena e excomunga todo e qualquer um que coloca questões um pouco mais incómodas, que é governada por uma série de cardeais com uma visão muito pequena do que é o papel da Igreja no mundo, que acha que só a Igreja Romana tem ( e aceita) esta "coisa nenhuma" que é o católico não praticante, etc etc etc.,aliás a minha mãe sempre me disse que eu era muito avançado para a Igreja e que devia conter-me um pouco mais.
Isto tudo à parte permitam-me esta crítica. É inadmissível a forma como a Igreja está a conduzir a sua participação neste referendo. Já nem vou falar dos panfletos que se andaram a espalhar por Fátima, que eram uma forma pouco digna de apresentar Nossa Senhora tentando manipular da forma menos digna a adoração que muita gente lhe faz, mas adiante.
Eu até não me importava que os senhores sacerdotes fossem fazer campanha e apelar ao voto no Não, mas fazer campanha de um altar abaixo, durante uma missa em que as pessoas vão fazer nada mais que rezar e ainda por cima da forma como o faz, é impossível. Um exemplo: chamar de terroristas, assassinos, genocídas, pecadores, e ainda outras expressões pouco dignas, valeu a um padre o abandono da missa a meio, por mim e por muitos outros que se sentiram revoltados por irem àquele lugar rezar e terem de ouvir tal barbaridade.
Principalmente de uma Igreja que excomunga a mulher que aborta e que perdoa, e abençoa, o assassino, o genocída, que não diz uma palavra a condenar a pena de morte.
Esta é a Igreja que afasta milhares de fiéis todos os dias devido às suas posições. Esta é aIgreja que faz campanha pelo Não em Portugal. Esta é a Igreja que apesar de liderada por uma pessoa com um alto nível moral, em Portugal, publica panfletos como aquele que referi. Esta é a Igreja que se esvazia, e infelizmente não percebe porquê.

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