quarta-feira, outubro 04, 2006

Ah! Pronto, tá bem!

À uns meses numa entrevista José Miguel Júdice caracterizava o português como um "merdas", uma pessoa inamovivel seja por que motivo for, que não luta por nada e tá sempre à espera que, ou os outros façam por eles, ou que as coisas acabem por acontecer por obra e graça do Espírito Santo.
Ontem, Maria Filomena Mónica dizia o mesmo, mas por outras palavras, que os portugueses estavam habituados a que tudo se fizesse e por isso não estavam habituados a lutar por nada, e consequentemente, davam menos valor às coisas que tinham (não num sentido material , de posse, mas num sentido social, democrático).
Daí esta minha intervenção. Até à uns tempos não tinha pensado muito nisso, mas com o raiar da crise em que nos encontramos comecei a apreciar melhor os comportamentos das pessoas e as suas reacções às medidas um pouco mais severas que os sucessivos Governos têm adoptado. E comecei a ver como têm razão as pessoas que citei. As pessoas não se mexem, tão sempre à espera que o Governo ou os outros façam tudo por elas. Mas ainda pior, quando os seus direitos são atingidos ficam imóveis, e a única coisa que sabem dizer é "tá bem, se tem que ser assim". Podem-lhes estar a roubar o carro ou a espancá-los (no sentido figurado , claro) que a reacção é sempre a mesma " se é para combater o défice".
E lembrei-me de escrever isto depois de ver uma reportagem na televisão sobre a subida das tarifas da EMEL (essa empresa sem poderes de autoridae, mas que mesmo assim bloqueia carros, cobra as tarifas que quer, multa mesmo quando os seus parquímetros estão avariados, etc etc etc), onde, nalguns casos, as subidas foram de 100%. Qual a reacção? "Ah, se tem que ser, também temos que combater a crise não é?". Mas qual quê? Será que as pessoas são cegas ou são mesmo burras e estúpidas? Não vêm que lhes estão a meter a mão ao bolso , com o pretexto de uma lei que tinha o objectivo de equilibrar o preço dos parques?
Por amor de Deus, deixem de ser uns coninhas e lutem pelos vossos direitos. deixem de dar desculpas esfarrapadas para não quererem mover uma palha!
A crise? Sim, a crise existe, mas é uma crise de identidade nacional, uma crise de valores, uma crise da sociedade, uma crise de democracia. Hoje em dia , infelizmente toda a gente vai atrás da opinião maioritária, e os que se erguem para fazer uma crítica, ou para colocar uma questão são considerados como os deturpadores da verdade, os de sempre, os que só sabem dizer mal.
"Porque afinal isto está mal, mas no fundo eles são todos iguais, e se eu fizer alguma coisa, se largar o comando e me levantar do sofá, se parar de atirar lixo para o chão, se começar a poupar em desperdícios e começar a investir no futuro, se educar os meus filhos, se me ducar a mim próprio etc etc, não vai valer de nada, porque sozinho não vou mudar o mundo."
Infelizmente muitos (talvez demasiados)pensam assim, e são esses que têm que acabar com o "tá bem" e começar com o "porquê?"!

3 Comentários:

Blogger Лев Давидович disse...

Bem, quanto ao Judice, o facto de ter dito que o Estado só deveria recorrer aos grandes escritórios para a "produção" de pareceres jurídicos, explica os "merdas" que os Portugueses são. De facto, ele correu atrás do que queria, alias, disse mesmo o que queria. É muito coerente.
Quanto à Filomena Mónica, sabendo da sua inteligência, do seu carisma, não me posso é esquecer da posidónia que é. Ela é alguém a quem nunca se fecharam portas, teve sempre o que quis, ainda merecendo, e sendo fantástica no que faz, não coloco isso em causa, não deveria tentar converter-se num oraculo da verdade.
Acho paradigmático, o que essas pessoas que citaste, disseram: é que é típico! Um senhor de grande capital, conhecido por dizer que o Estado é enorme, que defendeu um oligopolio de empresas juridicas e que, por fim, goza de uma notoriedade que lhe permite dizer o que quiser, transforma-se no agitador de massas, num amigo da revolta.
Se há coisas que me irritam são estas.
Alguém que sente nojo de um delegado sindical, não pode dizer o que disse. Alguém que deve vomitar quando ouve o Carvalho da SIlva, devia era estar calado.
Se os Portugueses são como são é porque foram sucessivamente explorados por esses icones do dogma e sabem que, mais cedo ou mais tarde, se receberam um perú no natal, terão de dar uma catrefada deles na pascoa. Roubos sucessivos, pensam pelos outros e ainda tem de ouvir dizer que são tacanhos.
Andamos mesmo na mó de baixo, nem nos podemos ver á frente: há um odio genético em nós que só não nos matamos porque ainda somos (pouco) humanos.
Claro que tem que haver luta, claro que tem que haver tomadas de posição. Mas se não houver seriedade e se brincar, sistemáticamente com tudo, bem, o Judex tem razão.
Seja como for, e isto já deve ir grande e ninguém vai ler, cada portugues, por mais pobre que seja, tem de pensar pela sua cabeça, tem de sentir se o estão a atacar ou a reduzir benefícios. Não é por ser o lawyer ou a Magister Suma a dizer. Esses são aqueles que gostam de tudo como está para continuarem a dizer o que querem. Alguém já parou para penser qual o papel dessa gente no processo de transição para uma sociedade democrática? o (zerão!)
Portanto, epb, que aches o que postulas, acho perfeitamente bem, mas ao citar esses dois fantasmas da luso-cultura estás a ir contra o que pensas, porque não foram as opiniões dessa maralha intelectual que salvaram o país de estar como está, muito pelo contrário.

10:39  
Blogger Eduardo Pinto Bernardo disse...

Creio que fui mal interpretado.
Não citei essas duas pessoas para fundamentar o meu pensamento no que eles disseram, mas porque depois de os ouvir é que comecei a pensar no que eu pensava sobre o assunto que eles estavam a divagar, ou seja, do que eu pensava dos portugueses. Se transpareci outra coisa, não era a minha intenção.

13:30  
Blogger Лев Давидович disse...

Tudo certo, ainda bem que pensas assim. E tens razão.

14:13  

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